17th set2012

É mais fácil calar, do que tentar achar as palavras certas.

by Biattrix

Há meses não escrevo. Na cabeça, milhões de palavras, todas carregadas de sentimento. E um não-saber como começar, como escrever sem julgar ninguém, apenas colocando em forma de texto tudo o que sinto aqui, calada.

Em contraponto, João está cada vez mais falante. Fico impressionada com a fluência do pequeno! Em parte, porque eu sempre lhe disse que era preciso aprender a falar sobre os sentimentos. Que é bom dividir o que pensamos, assim mesmo: em voz alta. Quando escutamos o que nós mesmos estamos falando, nos damos conta de várias outras questões. O não conseguir falar também diz muito. E vai explicar isso para uma criança de 6 anos?!

Quando estamos de cabeça quente, sempre o oriento a se isolar um pouco, tomar o tempo necessário para se esfriar e pensar melhor. E só então falar.

Eu já pequei tanto ao dizer coisas que não queria, só porque a cabeça fervendo embotava os pensamentos. Já feri muita gente que amo além da conta. Porque eu não sabia esperar, processar aquela emoção. Atacar sempre parecia a saída perfeita para me defender. Do quê? Não sei. Nunca pensei direito sobre isso.

Agora, mais madura, vejo que errei tanto!

Não que minha intenção seja eliminar os erros da vida do João! Isso é impensável! Apenas quero dar ao pequeno mais instrumentos, para que os seus erros sejam outros – os dele, e não os meus.

Eu escolhi ser mãe solteira. Optei por criar sozinha o meu filho. Hoje, acho que até profetizei isso, ao dizer, do alto dos meus 16 anos, que “aos 35 – casada ou não – eu teria o meu filho”. João nasceu uma semana depois d’eu completar – adivinhem?! – 35 anos.

Nos primeiros meses de gravidez, eu pirei. Questionava essa decisão, lutava para me encaixar no modelo vigente de família (da minha cabeça, ok?!). Aos 6 para 7 meses de gestação, terminei o namoro falido com o pai do João. Nos meses seguintes, tentei não deixá-lo de fora da (futura)vida do filho mais novo. Porque mesmo sem uma relação afetiva entre nós, não queria privar o João de desenvolver a relação deles – de pai e filho.

Depois das visitas contadas nos dedos da mão, o afastamento. Para, depois de 4 anos, um oficial de justiça anunciar a visitação.

Ô diazinho dolorido, viu?! Meu maior medo era que, ao entrar na vida do João, o pai – até então desconhecido, criasse um vínculo que seria rompido depois. Meu medo era que essa presença não fosse constante. E que o meu filho tivesse que aprender a suportar a saudade e administrar todas as dúvidas do abandono. O que, infelizmente, aconteceu seis meses depois.

Hoje, longe do pai há dois anos, João questiona essa ausência. Por que é a pergunta que ele mais faz. Por que não liga? Por que não fala pelo computador, como os tios? Por que não vem me visitar?

É claro que eu inventei mil desculpas e criei um pai-que-nunca-existiu. Até fazermos terapia, onde aprendi a não tapar o sol com a peneira (tão frase da minha avó!).

João sabe que o pai está longe e não liga porque não quer. Os motivos, nós nunca vamos saber, até que ele mesmo se posicione. Não é uma resposta aconchegante para o João. Mas, tento que seja a mais neutra possível, já que é ele quem precisa qualificar a relação de pai-e-filho.

Dentro da minha cabeça, uma vozinha diz: eu já sabia! E segue desfiando um rosário de adjetivos não publicáveis.

Cabe a mim, aprender a lidar com isso: ver meu filho sofrer e calar suas dores pela ausência do pai. Entender esses momentos e ajudá-lo a elaborar, em palavras, o que o coração sente. Estender a mão e seguir juntos, aprendendo cada um a viver a sua história particular.

Agora que eu escrevi o que me calava, talvez possa matracar novamente sobre as coisas que descubro todos os dias, as graças e gaiatices do João, as minhas próprias palhaçadas, e as angústias, por que não?!, afinal, só sofre o coração que pulsa!

06th jan2012

Cirque du Soleil

by Biattrix

O ano começou cheio de boas surpresas!

A minha vida tem mudado muito, e bem rápido. Confesso que não dou muita atenção em como isso impacta a mega-mutante-vida do João. Sim, porque aos 5 anos de idade, tudo muda o tempo todo e as novidades acontecem a cada 5 minutos (embora o tempo pareça andar bem lento, quase arrastado!). E essa falta de atenção é proposital – a vida é assim, e dar muita atenção a isso seria hipervalorizar algo corriqueiro.

Comemoramos as conquistas. E de um tempo para cá, tenho celebrado os erros também!

Errar é fazer.
Errar é mão na massa.
Errar é crescer.
Errar é amadurecer.
Errar faz parte de todo e qualquer processo de aprendizado.

Eu poderia continuar listando tudo o que um erro pode nos oferecer, mas acho que isso já mostra o que penso a respeito.

– Eu já comentei que adoro ouvir meu vizinho errando as notas no Sax? Poizé… adoro. É como se eu acompanhasse sua evolução. No início, as repetições e erros me incomodavam bastante. Depois, mudei o foco e passei a admirar sua persistência, paciência, e horas de dedicação. Nota a nota, ele repete frases inteiras no instrumento, sem evoluir para uma “música” de fato. Até aquela frase estar perfeita no sopro, no ritmo dos dedos, nos ouvidos…

Meu irmão mais novo, padrinho do João, é bem perfeccionista, exigente e  imediatista! Diz querer tocar um instrumento, mas sabe que não teria a paciência necessária para tantos erros. Admiro isso. E odeio também. Desta maneira, ele se priva de tantas alegrias! Embora esse querer seja um dos mais frouxos, aquele querer-querer-quero-não…

Eu fui assim um dia. Não sei ao certo quando mudei e passei a valorizar os erros. Mas lembro do dia exato que a “ficha caiu” e me peguei na área de serviço, debruçada na janela, encantada com as repetições infinitas do sax do meu vizinho. Não vou exagerar, mas o mundo ganhou mais nitidez.

A mesma sensação eu senti na quarta-feira, dia 4 de janeiro, ao prender o ar no instante que um artista do Cirque du Soleil errou o passo.

O espetáculo Varekai é mais bonito do que eu imaginava. A trupe é incrível, além do humano. Com gestos e movimentos que desafiam o cotidiano e os aproximam do que eu imagino Deus.

Assistir ao Cirque du Soleil foi um presentão! A Cris nem imagina a felicidade que nos deu quando deixou dois ingressos na minha portaria. Eu estava ansiosa e um tanto desapontada com a falta de interesse do João. Mas, ó, que delícia ver o rostinho dele mudar espetáculo adentro. Queixo caído, olhos arregalados, inquieto na cadeira, tentando absorver toda aquela informação.

Saímos do espetáculo encantadérrimos e, por mim, posso dizer: foi uma apresentação impecável e inesquecível.

Mas, e aquele erro? Bem, ele não foi o único da noite – precebi mais dois deslizes. Eu seria leviana se dissesse que aqueles três perceptíveis erros comprometeram todo um espetáculo belíssimo. Aliás, leviana não: eu seria muito amarga se pensasse isso…

Então porque deixo aqui registrados os erros? Ora, porque até eles foram lindos! O sorriso do artista ao levantar da queda, sua insistência e garra para tentar de novo… ah! Eu os tomo como lição de vida! E assim, tento mostrar o mesmo para o João.

 

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