13th ago2011

Amanhã é o dia dos pais. E daí?

by Biattrix

Não sei se já falei do pai do João. Talvez não, porque é muito dolorido para mim.

Só que eu não posso mais ignorar este assunto, achando que se eu não falar nada, ele continuará debaixo do tapete…

João tem hoje cinco anos e cinco meses. Ao longo desses 65 meses, eu me desdobrei em papéis que não me pertencem, na infantil tentativa de suprir o roll de personagens necessários para se educar uma criança. Pelo menos na minha imaginação, através dos meus filtros, dentro da minha realidade – assim, bem egocêntrica (pego da palavra o seu significado original e sem deméritos: Diz-se daquele que toma a si próprio como referência para tudo).

Marcelo e eu não tínhamos uma relação estável. Ou mesmo uma relação, como descobri depois. Namoramos por três meses. Engravidei sem planejar (eu prefiro o engravidamos, porque foi da forma mais tradicional possível!). No sétimo mês de gestação, nos separarmos de vez. Foi uma época difícil não só para mim, tenho certeza.

Meio perto, meio longe, ele acompanhou a gravidez e, no dia 15 de março de 2006, esteve ao meu lado, aguardando o nascimento do João, com aquela roupa ridícula de centro cirúrgico e cara de pai babão.

Apesar de não estarmos juntos, nunca coloquei obstáculos para a relação pai-e-filho acontecer. Ao contrário – sempre cobrei (até demais) que os dois fossem mais ligados. Desde o início, entendo e aceito que esta é uma relação da qual eu não participo. É algo que eles, os caras, devem construir e fortalecer… ela independe da minha vontade e não está sob meus cuidados. Tudo o que posso e devo fazer é não qualificá-la.

Foi no meio de 2009 que Marcelo se apresentou ao João. A última vez estiveram juntos foi dois anos antes, na festa de um aninho. Um cara estranho aparece na porta de casa e o pequeno corre de braços abertos. Segundo determinação do Juiz, foram quase 16 finais de semana que eles tiveram para se reconhecerem. Em abril de 2010, uma oportunidade de trabalho em Aracaju leva o pai do João para longe…

Vi o pequeno passar maus bocados de saudade. Levei um tempo para perceber que precisaríamos de ajuda profissional. Tatiana, uma psicóloga especializada em relações familiares, me mostrou que andei fazendo tudo errado! Eu inventava desculpas bonitinhas para a ausência do pai, desculpas ingênuas, do tipo: “ele está trabalhando, filho! Tá muito ocupado!”… “viajou!”… “é lógico que seu pai te ama, e deve sofrer muito por estar longe!”, “lá é quase meio do mato! Não tem telefone, nem internet”… Eu achava que assim, justificando esta ausência, eu protegeria meu filho da não-relação.

Hoje, assumo uma nova postura, mais real, mais verdadeira. João precisa aprender a lidar com o pai que tem. Um pai que mora longe, que nunca está presente, que – talvez – reapareça um dia desses para ocupar seu lugar. #Fato. Se bom ou ruim, só mesmo os dois podem dizer.

Como mãe do João, faço um esforço enorme para ficar neutra. E transformar esse material bruto em molde de caráter, de generosidade, de entendimento pelas diferenças. Procuro entender e ensiná-lo que as pessoas agem segundo suas próprias escolhas, e não como nós gostaríamos. Que cada escolha gera uma consequência, de nossa responsabilidade. Que precisamos lidar com a frustração.

Imagem: arztsamui / FreeDigitalPhotos.net

5 Responses to “Amanhã é o dia dos pais. E daí?”

  • Alexandra Barguil

    Acho que vc foi bem doce nesse post. Eu estava junto qdo o Marcelo ‘apareceu’ novamente…e qdo ele se foi…antes NUNCA tivesse voltado. O João convivia muito bem em saber que tinha um ‘pai’ mas sem nunca ter conhecido.
    Qdo o Marcelo passou 16 finais de semana visitando o João concretizou a ‘apenas’ imagem em algo real. E o FDP simplesmente se muda para onde Judas perdeu as botas e se esquece que tem um filho de 5 anos que ele fez QUESTAO de conhecer e agora nem atende aos telefonemas.
    Imagino como esta a cabeça do João nessas horas.
    Desejo que Deus seja justo e não permita que esse infeliz faça mais filhos.

    • Biattrix

      Alê, você foi uma grande amiga durante esse período! Obrigada por sua companhia, seu carinho, seu apoio. Hoje, não estamos tão presentes no dia a dia… Mas, apesar desta distância, meu carinho continua o mesmo. Obrigada por tudo, amiga.

  • Rafa guapinha

    Lá em casa ja passamos por isso tbm. E tbm uma psicóloga que falou q minha mãe e nós, as irmaes mais velhas, tbm estávamos agindo errado. Hoje a Julia tem 11 anos e conversa aberrtamente sobre a ausenncia do pai dela ( desde os 4 amos que eles nao se encontram). Buo em vc super-mãe .

    • Biattrix

      Guapa Rafa, descobri que não posso qualificar a experiência do outro, apenas estar por perto para ajudá-lo a entender melhor… Beijokas!

  • Rachel

    E como é difícil, né? Te entendo perfeitamente… O duro é o tanto que a dor deles (dos filhos) dói na gente. Mas eles serão fortes, vc vai ver. 😉

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